O canário na mina de carvão.

O ritmo desenfreado dos últimos meses fez-se acompanhar da insegurança que não se limita a um par de elementos, afetando antes múltiplos aspetos da vida de cada indivíduo e da sociedade como um todo de um modo profundo. A palavra trauma pode ter um peso e uma densidade que não estamos dispostos a reconhecer neste momento. Talvez seja, no entanto, adequado dizer que estamos perante uma constelação de eventos que envolvem ameaça, perda de controlo, perda de poder e, acima de tudo, medo. Estamos exaustos, e continuamos a passar por perdas que delineiam o que o dia-a-dia se tornou: de vidas, de bens básicos para muitos, de certezas e garantias para todos. A vida em comunidade e família sofreu disrupção, bem como o trabalho, lazer e tantas outras estruturas que nos caracterizavam até agora. Embora esta afeção seja perto de global, as respostas individuais apresentam diferenças de acordo com a matriz psico-sócio-cultural de cada um, expondo as suas vulnerabilidades - para além de não sabermos o que vem depois, já sofremos disrupção de muitos aspetos determinantes da nossa vida.


Os fenómenos individuais não explicam, no entanto, as ramificações ou a extensão das implicações de eventos traumáticos que afetam comunidades inteiras. Podemos entender este fenómeno ao conceber o indivíduo como estando envolvido na família, a família na comunidade e a comunidade na sociedade. Existe a necessidade de compreender as dimensões mais alargadas, uma vez que a pessoa existe no seu contexto e tem nos seus limites uma superfície permutadora suscetível às alterações do meio. Nestes casos, está descrito que as experiências traumáticas são enquadradas e reformuladas de acordo com as dificuldades do grupo. O corpo social vai tornar-se num local de deposição para o evento traumático, que se entrecruza com as manifestações a título individual. Uma narrativa coletiva pode ser ou não partilhada pelos membros do grupo. E esta narrativa pode ser mais ou menos objetiva. Enfrentamos uma disrupção do nosso sistema de crenças e das relações interpessoais. E o espectro da resposta face a eventos catastróficos é relativamente vasto, podendo as respostas ser puramente adaptativas, puramente mal-adaptativas, ou cair num ponto de toda a gama de cinza entre elas.


Há no entanto algo que podemos tomar como certo: existem sinais de alarme em todo o redor - a perda do sentido de comunidade, a desconfiança e a suspeição. A angústia de um grupo pode traduzir-se numa dificuldade em confiar noutros grupos ou indivíduos, numa defesa contra “o outro” que, na sua compreensão, é visto como tirano. É frequente a propagação de teorias da conspiração por números crescentes de grupos identitários, cujas ideias podem sofrer disseminação chegando até ao público em geral - existe sempre o “outro perverso e mau” que limita o grupo em questão ou o ameaça. Em momentos de crise, as crenças na “verdade oculta”, pensamento clivado e polarizado, são características. Fazem-se quase sempre acompanhar pela transferência da responsabilidade para “o outro”.


É importante relembrar que não somos todos iguais perante o vírus ou perante a sociedade. Se por um lado houve esperança num ponto de viragem, hoje mais que em Março ou Abril, a fragmentação entre grupos e comunidades apenas se tornou mais vincada. Mas, insisto ainda, que o espaço para o individualismo inconsequente é, ainda agora, um mau presságio. E que a intersecção entre a responsabilidade do indivíduo perante a sociedade como um todo e a liberdade individual pode muitas vezes vir a custo de uma perceção da limitação desta última. Por vezes, e de um modo não consciente, mantemos elevada a defesa da “ignorância abençoada” face às circunstâncias dos outros de modo a evitar a brutalidade do nosso eu auto-acusatório.


Quando, em Abril, escrevi A Pandemia Silenciosa, fi-lo com uma ingenuidade expectável. Moldada pela ânsia de que a pandemia viesse desenterrar de cada um de nós a solidariedade e sentido de interajuda necessários que, na minha ótica, seriam imperativos para uma travessia com menos tumultos. Torna-se impossível, a este ponto, toldar a visão face aos efeitos devastadores dos eventos da última dúzia de meses. Continuamos a ver o nosso quotidiano tomado pela pandemia de COVID-19 e todas as suas ramificações. No entanto, é de extrema relevância que não se deposite nela culpa que lhe é alheia. O que quero dizer é que a pandemia não me parece um jarro do qual o mundo bebeu e que continha nele todo o mal e infelicidade. Foi antes um canário na mina de carvão, um indicador avançado que permitiu levantar do véu da nossa atitude negligente face ao que já há muito se fazia avolumar - a desintegração do tecido de sustento da sociedade. Nada se resolverá se continuarmos cegos perante o que já deveria ser óbvio.


Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

Albert Camus, A Peste (1947)


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