• Dani(ela) Filipe Bento

Adormeço

Adormeço..


Acordo, olho o relógio, são meia noite e trinta. São uma, adormeço… Acordo, olho o relógio, são duas e trinta. São três, adormeço… Acordo, olho o relógio, são quatro e trinta. São cinco, adormeço… O despertador toca, são seis e trinta… acordo, viro-me na cama, espero pelas sete, e pelas sete e trinta… levanto-me. Preparo-me para mais um dia, mais um dia longo, um longo dia.

A cada noite pertence o seu próprio espaço e tempo, a sua mudança literal entre o estar e o não estar, uma mudança que é rompida e corrompida pela sua natureza. Um lugar de nada, um lugar de tudo… um mundo de existências, de vidas, de desfechos. É nesta ilusão desiludida, neste sentir quebrado, neste viver antagonizado que segue cada momento, cada dia.


É no limiar entre o sonho e a realidade, num precipício enjaulado, num abismo condicionado que procuro viver entre fissuras e brechas, entre acontecimentos e não acontecimentos, um percurso parado, um caminho desfeito, um andar atabalhoado e penoso. É no limiar entre o sonho e a realidade, num terreno árido, num campo hostil que colho sementes de rochas que crescem para o céu e árvores que crescem para a terra. Numa simbiose entre aquilo que existe e aquilo que procura existir.


A cada dia ancora-se um desejo, a cada dia ancora-se uma possibilidade, a cada dia ancora-se um fazer. Porém, a cada dia perde-se um desejo, uma possibilidade e um fazer. Entre o estar viva e o estar morta, apenas se distingue a ilusão. A fantasia de viver e reviver em um, dois, quatro, oito, dezesseis mundos é como o desejo de não querer viver em nenhum, como a ambição de apenas consolidar aquilo que de comum existe e aquilo que de incomum não pertence. Apenas isso e, só isso.


Queria sonhar sobre o sol e sobre a lua, queria sonhar sobre as estrelas e sobre as galáxias. Desejos inertes e vontades imobilizadas. Desejos no espaço e no tempo, na continuidade. Queria sonhar sobre o mar e sobre o rio, queria sonhar sobre a floresta e sobre o campo. Desejos móveis e vontades energéticas. Desejos na terra e na água, na vida.


É, num espaço vazio de sentir, que me entendo nos limites. É, num tempo imutável de sentir, que me entendo nas fronteiras. É entre o espaço vazio e o tempo imutável, que a potencialidade de permanecer viva conecta com a incapacidade de conter a sanidade. É entre espaços de loucura e tempos de alienação que acordo, é entre espaços de lucidez e tempos de juízo que procuro reviver e viver cada dia. O contraste entre o real e o imaginário difere apenas na forma, na apresentação… viver e sonhar, sonhar e viver, um mundo dual.


Sonho todos os dias e morro, também, todos os dias. Morro para voltar a viver. Morro para voltar a acordar. Morro para volta a sentir. Sonho todos os dias e vivo, também, todos os dias. Vivo para voltar a morrer. Vivo para voltar a adormecer. Vivo para voltar a anestesiar. É entre o viver e o morrer, que a linha condutora da persistência segue criando raízes, criando memórias e recordações. O alcance da dor, do cansaço e da insanidade só é mensurável através da sua vivência, do seu sentir, da sua predominância. O alcance do prazer, da vitalidade e da sensatez só é mensurável através da sua perda, da insensibilidade, da sua escassez.


É no mundo das incertezas e no mundo das não certezas que me entendo. É num mundo atingido pela inseguranças e pelos medos que me revejo. É num mundo resgatado pela ternura e pelo afeto que me asseguro.


Que o sono e o sonho me percorram as artérias do corpo reavivando cada célula, cada órgão, cada membro. Que me atinja a harmonia e a melodia de estar em sintonia comigo mesma. Que a vida me atinja e que me tinja de cor e brilho.


Dani


Imagem: abstract 10821 - Dimka


Texto originalmente publicado a 25 Abril 2020: http://www.overdestiny.com/adormeco/

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